(Português) 
Luz na escuridão

Dedicação

 Dedico este ensaio às pessoas que me ajudaram quando estava no meio de um turbilhão com seres humano envolvidos com violências
Dedico também às pessoas que infligiram violência, pois foi graças a elas que mergulhei, não só de cabeça, mas de alma em uma compreensão mais profunda da violência, do crime, do mal.
Dedico, portanto, este ensaio à luz que se esconde na escuridão destas almas.
Também dedico ao grupo de estudo Mani que tenta compreender o Mal como algo a ser redimido através do nosso atuar humano.

Luz na escuridão

Entrevista sobre violência 

O assunto da violência é complexo. Primeiramente temos que ver este assunto no contexto do Brasil e de São Paulo. Segundo, temos que ver a que tipo de violência estamos nos referindo. Violência de guerra, violência de roubo, violência de sistema, violência com palavras, violência à mão-armada ou violência doméstica. Até a poluição sonora e visual, as imagens brutais na TV são uma forma de violência ao sentido de beleza do ser humano, é uma invasão violenta à alma das crianças que deixam feridas. Podemos falar que tudo isso existe aqui na Monte Azul. O trabalho comunitário nunca é suficiente para erradicar a violência. Infelizmente, existem mulheres que apanham dos seus maridos e chegam azuis ao ambulatório. Infelizmente, crianças ainda são agredidas com palavras, palavrões, e às vezes, apanham dos pais. Também existem assaltos, furtos, roubos e raramente assassinatos.
– Mas então, não adiantou nada todo este trabalho durante anos?
– Lógico que adiantou. Só queria mostrar que não nos encontramos numa ilha feliz com um muro de proteção em volta, não somos separados do mundo e nem queremos sê-lo. A gente é parte do mundo, nas tristezas e nas alegrias. A violência invade, mas podemos amenizá-la. Mas além de um trabalho cultural e educacional como o nosso, é necessário também que os órgãos públicos protejam o cidadão, precisa de um posto policial confiável ao qual o cidadão possa recorrer. Muita violência tem a ver com a omissão dos órgãos públicos.
– O que vocês acham mais importante: a polícia ou um trabalho social?
– Eu penso assim: o trabalho social é um trabalho a médio/longo prazo, é um trabalho de construção, de esteio interior, de uma resiliência.
– Uma o que?
– Uma resiliência, uma pele psicossocial que protege o ser humano nas situações adversas e não o deixa perder seu equilíbrio, seu eixo. Apesar das adversidades, ele consegue recuperar sua saúde emocional. 
– Explica melhor.
– Com as crianças construímos a resiliência, por exemplo, através de histórias, dos brinquedos, evitarem brincadeiras com armas etc.. Resiliência se constrói principalmente pela atitude do educador, uma atitude de amor e compreensão que é o inverso da violência. E isso no dia-a-dia com as crianças. Falei que o trabalho social, cultural, educacional, é um trabalho de longa demora, passo a passo. A polícia é um “remédio alopático”, na hora de um grande perigo, de uma “doença grave”, por exemplo, quando a máfia da droga e de armas invade um lugar de moradias. O governo tem como principal tarefa a proteção dos direitos do cidadão, por exemplo, o direito à propriedade e o direito à vida. E também deve subvencionar o trabalho cultural já que pagamos impostos. O trabalho cultural em si é melhor ser desenvolvido pela sociedade civil, – com isso ele fica mais diversificado e mais interessante e envolve mais a comunidade.
– Quer dizer que o governo dá o dinheiro e a sociedade civil cria?!
– É isso mesmo! A criatividade das pessoas é enorme.
– Mas será que a cultura ajuda realmente a diminuir a violência?
– Sim, tenho certeza! Você já viu o mapa de inclusão e exclusão? Dá para perceber que nos bairros que têm mais opções de lazer, de cultura e educação, a violência é mínima, pelo menos roubo e assassinato. E lá onde faltam opções, onde não existem centros culturais, centros de lazer e oportunidades de profissionalização, o número de mortes é enorme. E há uma tragédia: você vê neste mapa, em certos bairros só as cruzinhas de morte e no outro bairro os centros culturais e esportivos. É uma tragédia.
– Quer dizer que você acha que a cultura ajuda a diminuir a violência?
– Acho que sim, mas cultura no sentido amplo, tudo que cultiva a alma. Então, inclui a educação e não só a educação na escola, mas tudo que forma a criança desde o ventre da mãe. Eu sempre falo para as educadoras do berçário. Atenção ao que vocês dão à criança, ao nenê, aí reside um grande fator de proteção. Isto cria a autoconfiança, a confiança primordial que a criança sente que vale a pena viver. Achei muito interessante uma conversa que tive com uma educadora que fez um estágio no berçário e observou como o nenê sempre procurou a mesma educadora; quando ele estava querendo algo, foi engatinhando atrás dela, procurando por ela, aquela mesma educadora no meio das outras quatro. Ela era a sua pessoa de referência, como falam os pesquisadores de resiliência. Porque foi esta educadora, a Maria, que cuidava deste nenê, que dava banho nele, que lhe dava seu mingauzinho, que o colocava para dormir e enxugava suas lágrimas. Este cultivo dos laços, do vínculo de amor cria na criança um esteio de segurança que faz com que ela, se tudo continuar bem, não precise de algo para preencher o vazio, o buraco no coração, como disse um dia um jovem da FEBEM.
 Resumindo: Valorizar o ser humano em sua diversidade e dar oportunidade de se expressar!


Ute Craemer