(Português) A procura da contemporaneidade

Um caminho inspirado por Mani 

No último fim de semana antes do Natal, jovens tentaram pela segunda vez incendiar a árvore de Natal no centro de Atenas e, depois de não terem conseguido fazê-lo, enfeitaram-na com sacos de lixo. O local onde em 6 de dezembro [de 2008] o adolescente de quinze anos Alexis Gregoropoulos encontrou a morte, em virtude de um tiro disparado por um policial, está a apenas algumas ruas de distância, sendo visitado como um lugar de peregrinação.

São principalmente ginasianos, a maior parte entre treze e dezoito anos de idade, que há mais de duas semanas empreendem um confronto com a polícia. Isso em toda a Grécia. “Eles se rebelam contra a hipocrisia que existe normalmente na sociedade”, relata o escritor Petros Makaris. As especulações sobre as causas dessa revolta continuada e aparentemente sem objetivo traduzem-se como uma análise do que está ocorrendo no mundo inteiro, e podem ser resumidas numa expressão: clima de decadência! Nenhuma expectativa mais, nenhuma esperança! Nesse caso, a maioria dos manifestantes — como o adolescente morto — vêm de famílias bem situadas. Isto, em geral, significa que os pais exercem atividade em pelo menos três empregos, a fim de poder dar a seus filhos — para os quais não têm mais tempo — ensino privado, pois o sistema escolar grego é falho em muitos aspectos.

Apesar de toda a perda de esperança, alguns ainda continuam vestindo sua camiseta alusiva a [Barack] Obama. Eles consideram a eleição do novo presidente americano como a única centelha de esperança do ano que passou. No entanto, a Terra está como que destruída; e quando eles terminarem os estudos, quase não haverá mais postos de trabalho.

O que acontece pelo mundo afora não os atinge: o fato de no leste do Congo centenas de milhares de pessoas estarem fugindo, esgotados e doentes, sem alimento; o fato de no Zimbábue centenas de pessoas terem morrido de cólera; o fato de na China e em outros lugares inúmeras pessoas terem perdido seus postos de trabalho sem perspectiva de um novo emprego. E daí?

Os custos da guerra no Iraque somam, atualmente, exatos US$ 582.895.237.404 [quase seiscentos bilhões de dólares]. O jornalista iraquiano Muntaderal-Zaidi, que durante uma conferência de imprensa em 14 de dezembro [de 2008] atirou seus sapatos no presidente [George] Bush, em fim de mandato, deverá ser levado a julgamento em 31 de dezembro. Quanto aos sapatos, trata-se de um ‘Modelo 27’ do estoque do fabricante de calçados de Istambul Ramazan Baydan. Enquanto o incidente no Oriente Próximo e no Oriente Médio deflagrou uma gigantesca investigação dos ‘sapatos Bush’, como os batizou o fabricante, o irmão do jornalista relata sobre graves maus-tratos e torturas sofridos por este último, por parte das forças de segurança iraquianas, após sua prisão.

Belém espera novamente, este ano [2009], mais peregrinos. Palestinos que confeccionam toscas figuras de presépio abriram novamente suas lojas. O Hamas1 promete para 22 de dezembro um cessar-fogo de 24 horas, período em que nenhum foguete deverá ser disparado de Gaza contra Israel; na África, busca-se em vão um fortalecimento das tropas de paz para a Somália. Após a queda do governo belga no fim de semana passado — uma consequência da crise mundial no mercado financeiro —, o até agora Ministro do Exterior não poderá mais atribuir importância alguma à sua malsucedida convocação para o envio de uma tropa de paz à região leste do Congo. Na Bélgica, num único dia de dezembro 1.200 trabalhadores perderam seus empregos, 800 deles só na Ford, em Limburgo. Em toda parte no mundo, muitos vivem com a angustiante pergunta: quando será minha vez?

Tudo faz dirigir o olhar para a América, onde em 20 de janeiro [de 2009] Barack Obama foi empossado como presidente dos Estados Unidos, enquanto na União Europeia continua-se debatendo se os prisioneiros da baía de Guantánamo, contra os quais não existem acusações comprováveis, podem ser recebidos nos países da Europa. Até agora [início de 2009], só Portugal assentiu.

1 Partido extremista palestino, investido no poder. (N.T.)

4O dia 22 de dezembro de 2008 foi um dia como outro qualquer, e esta é apenas uma seleção de uma onda de notícias que já ficaram ultrapassadas no mesmo instante de sua transmissão. “Será que esses fatos e acontecimentos têm algo a ver comigo?” — pergunta-se cada um. “Ou acaso seria melhor expulsar tudo isso de meu próprio campo visual e, em seu lugar, aproveitar o sol de inverno?” É desse tipo de perguntas, que são igualmente perguntas sobre uma possível ‘contemporaneidade’, que tratam os capítulos a seguir. Ninguém é uma pessoa contemporânea pelo fato de ter nascido em determinado ano, ou pelo fato de viver na atualidade. Pessoa contemporânea é algo que alguém se torna. Isto nos exige determinada atuação que, por seu lado, pressupõe um conhecimento.

Agir com base em conhecimento poderia ser um marco principal de liberdade e, ao mesmo tempo, representar a condição para alguém se tornar uma pessoa contemporânea. Entre contemporaneidade e liberdade existe uma íntima ligação. Nesse caso não se trata, de modo algum, de uma liberdade comparável a emancipação ou liberação, e nem tampouco a agir ao bel-prazer.

De que maneira alguém se torna uma pessoa contemporânea? Antes de nos voltarmos para esse questionamento e descrevermos alguns passos concretos nesse sentido, é importante observarmos com exatidão a época atual.

O que entendemos por ‘época atual’? De quê, afinal, eu compartilho ao me tornar uma pessoa contemporânea?

Christine Gruwez

Associação Comunitária Monte Azul 2009
Tradutor: Jacira Cardoso.